Por que o MXGP ainda não virou esporte de massa?
O MXGP entrega tudo o que uma grande competição precisa para prender o público: motos no limite, pistas que mudam a cada volta, contato, erro, recuperação e pilotos capazes de fazer uma 450 parecer leve. Mesmo assim, o Mundial de Motocross ainda ocupa um espaço pequeno quando comparado a categorias como MotoGP e Fórmula 1.
Essa diferença voltou ao centro da conversa em uma entrevista publicada pelo Gate em 29 de julho de 2026. Steve Dixon, chefe da equipe britânica Dixon Racing, afirmou que o MXGP ainda sente falta de superestrelas e falou sobre televisão, divulgação, acesso do público e imagem do motocross.
Dixon conhece esse paddock há décadas. Por isso, a fala merece ser analisada sem cair na resposta fácil de que basta colocar as corridas em um canal aberto. A transmissão importa, mas o desafio envolve um conjunto maior: acesso, narrativa, identificação com os pilotos, presença das marcas e uma ponte mais curta entre quem assiste e quem quer começar a andar.
O problema não está na qualidade das corridas
Quem acompanha o Mundial sabe que falta pouca coisa na pista. O campeonato reúne alguns dos pilotos mais rápidos do planeta e visita circuitos com características muito diferentes. Há piso duro, areia profunda, canaletas, saltos grandes e traçados em que a escolha de linha muda de uma volta para outra.
Para o fã que já conhece motocross, isso é um prato cheio. O obstáculo aparece antes: fazer alguém que ainda não acompanha parar, entender o que está em jogo e criar uma ligação com um piloto, uma equipe ou uma marca.
Dixon compara a dimensão do motocross com esportes de motor maiores e lembra que a base de praticantes também é menor. É uma observação importante. Quase todo brasileiro dirige um carro e muita gente usa moto na rua, mas uma parcela bem menor já entrou em uma pista de motocross ou fez uma trilha. Sem essa experiência, detalhes como leitura de terreno, escolha de relação, acerto de suspensão e controle de tração no punho podem passar despercebidos.
O esporte precisa traduzir melhor essas dificuldades. Não para simplificar a pilotagem, mas para mostrar ao público por que aquilo que parece natural na mão de um profissional é tão difícil de executar.
Visibilidade ainda é uma barreira
Um dos pontos levantados por Dixon é a dificuldade para assistir ao MXGP em alguns mercados sem contratar uma assinatura. Quando a competição fica atrás de uma barreira de pagamento, ela fala principalmente com quem já é fã.
O assinante busca o calendário, conhece os pilotos e está disposto a ajustar a rotina para ver as baterias. O público novo funciona de outra maneira. Ele normalmente chega por um vídeo curto, uma chamada na televisão, uma disputa compartilhada nas redes ou uma história que ultrapassa o ambiente da pista.
Uma janela gratuita, mesmo que parcial, poderia ampliar esse primeiro contato. Não significa que todo o campeonato precise abandonar sua plataforma oficial. Resumos bem distribuídos, corridas selecionadas, programas de bastidores e conteúdo em canais com grande alcance já ajudariam a apresentar o produto.
No Brasil, o efeito poderia ser relevante. Existe uma comunidade forte de trilha e motocross, além de um mercado de equipamentos que atende desde o iniciante até o competidor. O que falta muitas vezes é transformar interesse disperso em hábito de acompanhar o campeonato.
Mais público também interessa aos patrocinadores
Audiência não serve apenas para inflar números. Ela muda a capacidade de uma equipe buscar patrocinadores fora do setor da motocicleta.
Quando o alcance é pequeno ou difícil de medir, a equipe depende mais das próprias fábricas e de empresas que já vendem para o motociclista. Pneus, capacetes, botas, óleos, suspensões e componentes continuam fundamentais, mas um esporte maior precisa atrair também bancos, empresas de tecnologia, alimentos, serviços e marcas de consumo.
Dixon aponta que mais exposição poderia tornar a publicidade interessante para um grupo maior de empresas. Isso cria um ciclo positivo. Patrocínio dá estrutura para as equipes produzirem conteúdo, contratarem pilotos, investirem em testes e chegarem ao público com uma apresentação melhor. A apresentação melhor aumenta a audiência e valoriza novamente o patrocínio.
O MXGP precisa de ídolos ou de histórias mais bem contadas?
Quando Dixon diz que faltam superestrelas, a leitura não deve ser que faltam pilotos de alto nível. Talento existe de sobra. O ponto é a projeção além do resultado de domingo.
Um ídolo não é construído apenas com vitórias. O público precisa entender sua origem, suas dificuldades, seu estilo de pilotagem e a rivalidade que dá peso a cada disputa. Precisa saber por que determinado circuito combina com um piloto, por que outro sofre na areia e o que uma lesão mudou na temporada.
A Fórmula 1 é citada com frequência porque ampliou seu alcance por meio de séries e conteúdos voltados aos bastidores. Dixon reconhece o potencial desse tipo de narrativa, embora ressalte que uma produção de grande escala exige investimento alto.
O MXGP não precisa copiar outro esporte cena por cena. Precisa encontrar a sua linguagem. No motocross, o material já está lá:
famílias que atravessam países para sustentar uma carreira;
pilotos privados competindo contra estruturas oficiais;
mecânicos reconstruindo motos entre treinos e baterias;
adaptação a pistas completamente diferentes;
retorno após lesões sérias;
decisões de acerto que mudam o resultado de uma corrida.
Contar essas histórias aproxima o fã da pessoa que está dentro do capacete. Quando essa conexão acontece, a torcida continua mesmo em um fim de semana ruim.
A experiência ao vivo é uma vantagem do motocross
Dixon também destaca uma característica que o MXGP pode explorar melhor: a proximidade. Em muitos eventos de motocross, o público circula perto das equipes, vê os mecânicos trabalhando e sente de perto o ambiente da corrida.
Esse contato é difícil de reproduzir em categorias com paddocks muito fechados. No motocross, o barulho, o cheiro, a terra e o trabalho nos boxes fazem parte do espetáculo. Quem acompanha uma prova presencial entende rapidamente a exigência física e técnica da modalidade.
Para promotores locais, lojas, motoclubes e marcas, essa é uma oportunidade. Um evento não termina na bandeirada. Pode incluir apresentação de pilotos, área para experimentar equipamentos, conversa sobre segurança, exposição de motos, sessão de autógrafos e conteúdo técnico.
O fã que experimenta uma joelheira, entende o ajuste correto de uma bota ou conversa sobre escolha de capacete cria uma relação mais concreta com o esporte. A conexão entre competição e produto precisa ter utilidade, não parecer apenas propaganda.
A imagem do motociclismo também pesa
Outro ponto sensível citado por Dixon é a associação do motociclismo com práticas ilegais em áreas urbanas. Manobras no trânsito e uso irresponsável da moto geram atenção, mas também prejudicam a percepção de quem não separa modalidades, ambientes e comportamentos.
O motocross precisa mostrar com clareza que é um esporte organizado, praticado em local adequado, com equipamentos de proteção, preparação física e regras. Essa comunicação começa nas grandes competições, mas também passa por cada pista, campeonato regional, loja e grupo de pilotos.
Equipamento não deve aparecer somente como item visual. Capacete bem ajustado, óculos, botas, luvas, colete ou protetor de tronco e joelheiras cumprem funções específicas. A manutenção da moto e o respeito ao local de prática fazem parte da mesma cultura.
Quanto mais o público vê essa estrutura, mais fácil é diferenciar esporte de comportamento irresponsável.
O que essa discussão ensina ao motocross brasileiro
O Brasil não precisa esperar uma campanha global para aplicar algumas dessas ideias. Há ações possíveis em escala local.
Facilitar a entrada de quem tem curiosidade
Quem quer começar costuma ter dúvidas básicas: qual moto escolher, quais equipamentos são indispensáveis, onde andar e quanto custa manter a prática. Pistas, escolas, lojas e pilotos experientes podem produzir respostas diretas e responsáveis.
Uma experiência inicial bem orientada vale mais do que dezenas de vídeos soltos. O iniciante precisa saber que segurança, manutenção e evolução gradual vêm antes de velocidade.
Dar rosto aos campeonatos
Resultado é importante, mas a tabela sozinha não cria torcida. Campeonatos nacionais e regionais ganham valor quando apresentam pilotos, equipes, categorias e histórias antes da largada.
Uma entrevista curta sobre preparação, escolha de pneus ou recuperação de uma lesão ajuda o público a acompanhar a prova com contexto. Depois da corrida, análise e bastidores mantêm o assunto vivo.
Produzir conteúdo que ensina
O fã de motocross gosta de técnica. Mostrar como uma pista muda, por que o piloto altera a calibragem ou como o mecânico prepara a moto para a proxima competição e treino.
Esse tipo de conteúdo também abre uma conexão natural com produtos. Em vez de apenas dizer que uma peça é usada em corrida, vale explicar qual problema ela resolve, para quem faz sentido e quais cuidados exige na instalação.
Valorizar a prática responsável
Divulgar pistas autorizadas, escolas, eventos e equipamentos adequados fortalece a modalidade. Também ajuda a construir uma imagem que patrocinadores e famílias enxergam com confiança.
O crescimento sustentável do motocross depende de mais gente assistindo, mas também de mais gente começando do jeito certo.
Existe um caminho para o MXGP crescer?
Sim, mas não existe uma única chave. Televisão aberta pode ampliar o alcance. Conteúdo de bastidores pode formar ídolos. Eventos mais acessíveis podem converter curiosidade em torcida. Uma imagem responsável pode atrair famílias e patrocinadores.
O mais importante na fala de Steve Dixon é perceber que o MXGP já possui a parte mais difícil: competição disputada e emocionante, pilotos de elite e um espetáculo que funciona ao vivo. O próximo passo é tornar esse valor compreensível para quem ainda está do lado de fora.
Para quem vive o motocross, a tarefa é contar melhor o que acontece entre a largada e a bandeirada. Cada canaleta escolhida, cada ajuste de suspensão e cada retorno depois de uma queda carrega uma história. Quando o público entende isso, deixa de ver apenas motos levantando terra e começa a enxergar o esporte.
FAQ
O que é o MXGP?
MXGP é a principal categoria do Campeonato Mundial de Motocross organizado pela FIM. O nome também é usado de forma ampla para se referir ao campeonato, que inclui outras classes.
Por que o MXGP tem menos audiência que a MotoGP?
Há vários fatores, entre eles uma base menor de praticantes, menor presença em grandes canais de mídia, acesso pago em alguns mercados e menor exposição das histórias de pilotos e equipes para o público geral.
Steve Dixon disse que faltam pilotos talentosos no MXGP?
Não. A crítica é sobre a falta de superestrelas com projeção além do público já ligado ao motocross. O campeonato conta com pilotos de altíssimo nível.
Onde assistir ao MXGP?
A disponibilidade varia conforme o país e a temporada. Antes de cada etapa, consulte os canais oficiais do MXGP e a programação de detentores locais dos direitos de transmissão.
Como o motocross pode atrair novos fãs no Brasil?
Com transmissões e resumos acessíveis, histórias de pilotos, conteúdo técnico, eventos bem divulgados, iniciação orientada e valorização da prática segura em locais autorizados.